Thursday, September 25, 2008

ÂNSIA

No dia em que não houver mais loucos neste mundo
A Terra há-de parar, cansada de tanto movimento
Arfando, limpará o suor da sua testa
E, como desse dilúvio nada restaria,
Numa inércia eterna que então reinaria,
Eu quero: a Terra que continue sempre
Movida pelos novos loucos que a empurram.

Tu aqui e eu lá
Neste vai-vem em que eu vou
Nem te pressinto
Será que te encontro?

Longe é que me lembras
Mas sem cuidados
É só pela distância
Ou será que também ardes?

Atolei-me na lama
Desfez-se a aço
Tocas-me aos poucos
Serei eu o que te chama?

Somos é dois loucos
Perseguidos por nós mesmos
Rasgados por dentro
Buscando que remendo?

A via da ser
Com troços de glória
Sonhos à solta,
Quiçá com revolta,
Aspiração à memória.
Amar, porvir, não ter.


- Almada Negreiros

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