Então duas prostitutas apresentaram-se diante do rei.
Uma delas disse-lhe: «Por favor, meu senhor, eu e esta mulher moramos na mesma casa, e eu dei à luz um filho, estando ela em casa.Três dias após o meu parto, ela também deu à luz. Vivíamos juntas, sem que mais ninguém morasse ali; só lá estávamos nós as duas.Numa noite o filho desta mulher morreu, abafado por ela, que dormia sobre ele. Em plena noite ela levantou-se, enquanto a tua serva dormia, tomou de junto de mim o meu filho e deitou-o a seu lado; o seu filho, o morto, passou-o para junto de mim. Ao levantar-me de manhã para dar de mamar ao meu filho dei com ele morto. Quando se fez dia, examinando bem, vi que aquele não era o meu filho.»
A outra disse-lhe: «Não é assim; o meu filho é o que está vivo; o morto é que é o teu.» Aquela, por sua vez, dizia: «Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é meu.» Assim falavam elas diante do rei. O rei disse então: «Esta diz: ‘O meu filho é o vivo; o morto é teu.’ Aquela, por sua vez, diz: ‘Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é o meu.’»
Salomão ordenou: «Trazei-me uma espada.» E trouxeram uma espada ao rei.Disse: «Cortai o menino vivo em dois e dai a cada uma a sua metade.»
Então a mãe, a quem pertencia o filho vivo, e cujas entranhas, por causa do filho, estavam comovidas, disse ao rei: «Por favor, meu senhor, dai-lhe a ela o menino vivo! Não o mateis!» A outra, pelo contrário, dizia: «Cortai-o em dois! Assim, nem será para mim nem para ti!»
Foi então que o rei tomou a palavra e disse: «Dai o menino vivo à primeira; não o mateis; ela é que é a sua mãe.»
Wednesday, March 26, 2008
A Sabedoria de Salomão
Tuesday, March 25, 2008
Não se luta por Amor
"O verdadeiro amor não precisa de lutas. Não se luta por amor: ou há amor, ou não há. Também não é preciso iniciar jogos, fazer-se interessante, entrar na coreografia infernal de medir forças e poderes do tipo «não me telefonaste durante três dias, agora também não me apanhas e nem te respondo aos emails», bem como outros disparates do género que só nos fazem perder tempo e energia. No verdadeiro amor não há lugar para esquemas, é preciso confiar, dar e acreditar sem reservas. É pegar ou largar, porque quando pega, é óptimo, e se não pega, não vale a pena correr atrás, nenhuma marca de cola nem truques de falinhas mansas resolvem o problema."
- Margarida Rebelo Pinto
No meio destas guerrinhas é que se perde o comboio da felicidade. Até neste campo, o importante parece ser "quem é que começou", "de quem é a culpa", "quem é que cede primeiro" e outras parvoíces afins!
- Margarida Rebelo Pinto
No meio destas guerrinhas é que se perde o comboio da felicidade. Até neste campo, o importante parece ser "quem é que começou", "de quem é a culpa", "quem é que cede primeiro" e outras parvoíces afins!
O que "vale a pena"?
"O nosso tempo afinou a crença que só vale a pena o que for compensatório. O que nos der mais conforto, mais poder, mais dinheiro, mais prestígio, mais fama. O que acrescentar qualquer mais-valia ao nosso investimento. Fazer o que quer que seja só pelo gozo parece bizarro, um argumento de quem esconde alguma coisa ou não tem mais nada para invocar."
- Isabel Leal
Onde fica no meio de tudo isto a realização pessoal, o enriquecimento do EU? Há pouco tempo inscrevi-me num workshop de teatro e logo vieram as críticas: "pra que te serve isso?", "Queres ser actriz?", etc e tal... não quero pra nada, quero pra TUDO, pra MIM, porque gosto, porque me LIBERTA.
- Isabel Leal
Onde fica no meio de tudo isto a realização pessoal, o enriquecimento do EU? Há pouco tempo inscrevi-me num workshop de teatro e logo vieram as críticas: "pra que te serve isso?", "Queres ser actriz?", etc e tal... não quero pra nada, quero pra TUDO, pra MIM, porque gosto, porque me LIBERTA.
Tuesday, March 18, 2008
Xuá-Xuá, a fêmea pré-histórica que inventou o teatro...?
Augusto BOAL (1998) narra o nascimento do teatro através da fábula chinesa de Xuá-Xuá, fêmea pré-histórica que teria inventado o teatro.
Segundo a fábula, a fêmea primordial teria sido engravidada por um macho de sua horda, o predador Li-Peng. Dessa união nasceu Lig-Lig-Lé, mas Xuá-Xuá não conseguia perceber a diferença entre ela e o filho, pois considerava-o parte integrante dela.
Num determinado dia, Li-Peng apoderou-se da criança e ensinou-a a caçar e pescar. Li-Peng sabia que ele e Lig-Lig-Lé eram diferentes, que um não fazia parte do outro, pois não via correspondência nenhuma entre as brincadeiras do casal e o nascimento do bebé. Ao se reencontrarem com a mãe, o filhote não a quis, preferindo a companhia do pai.
Segundo BOAL, foi nesse momento que se deu a descoberta! Quando Xuá-Xuá renunciou a ter o seu filho totalmente para si. Quando aceitou que ele fosse um outro, outra pessoa. Ela viu-se separando-se de uma parte de si mesma. Então, ela foi ao mesmo tempo actriz e espectadora. Agia e observava-se: era duas pessoas numa só – ela mesma! Era especta-actriz. Como somos todos espectadores.
Descobrindo o teatro, o ser descobre-se humano.
Segundo BOAL (1996), na medida em que a teatralidade, ou tomada de consciência de si mesmo, se efectiva, ocorre uma dicotomização entre o que o homem é e o que o homem pode ser. Essa dicotomia cria uma distância, pois o homem passa a colocar-se dentro e fora da situação, simultaneamente, distância que separa o “ser” do “poder”, o presente do futuro, o acto da potência.
Devido a isso, o homem “necessita de simbolizar a potência, criar símbolos que ocupem o espaço daquilo que é, mas não existe, que é possível e poderá vir a existir. Cria, pois, linguagens simbólicas: a pintura, a música, a palavra...” BOAL (1996).
O teatro convencional, entendido como a definição de uma linguagem artística específica, também foi criado para suprir a distância entre o homem que é e o homem que pode ser, entre o homem em acto e a emergência da potência que transforma este homem em outro.
O essencial, no entanto, é a capacidade humanizadora do teatro. O teatro convencional tende a mascarar a interpenetração dialéctica entre teatralidade e humanidade, na medida em que reserva à arte teatral para determinados indivíduos, profissionais do teatro.
Nesse sentido, BOAL (1996) observa criticamente que “No início, Actor e Espectador coexistem na mesma pessoa; quando se separam, quando algumas pessoas se especializam em actores e outras em espectadores, aí nascem as formas teatrais como as conhecemos hoje. Nascem também os teatros, arquitecturas destinadas a sacralizar essa divisão, essa especialização. Nasce a profissão do actor.”
Segundo a fábula, a fêmea primordial teria sido engravidada por um macho de sua horda, o predador Li-Peng. Dessa união nasceu Lig-Lig-Lé, mas Xuá-Xuá não conseguia perceber a diferença entre ela e o filho, pois considerava-o parte integrante dela.
Num determinado dia, Li-Peng apoderou-se da criança e ensinou-a a caçar e pescar. Li-Peng sabia que ele e Lig-Lig-Lé eram diferentes, que um não fazia parte do outro, pois não via correspondência nenhuma entre as brincadeiras do casal e o nascimento do bebé. Ao se reencontrarem com a mãe, o filhote não a quis, preferindo a companhia do pai.
Segundo BOAL, foi nesse momento que se deu a descoberta! Quando Xuá-Xuá renunciou a ter o seu filho totalmente para si. Quando aceitou que ele fosse um outro, outra pessoa. Ela viu-se separando-se de uma parte de si mesma. Então, ela foi ao mesmo tempo actriz e espectadora. Agia e observava-se: era duas pessoas numa só – ela mesma! Era especta-actriz. Como somos todos espectadores.
Descobrindo o teatro, o ser descobre-se humano.
Segundo BOAL (1996), na medida em que a teatralidade, ou tomada de consciência de si mesmo, se efectiva, ocorre uma dicotomização entre o que o homem é e o que o homem pode ser. Essa dicotomia cria uma distância, pois o homem passa a colocar-se dentro e fora da situação, simultaneamente, distância que separa o “ser” do “poder”, o presente do futuro, o acto da potência.
Devido a isso, o homem “necessita de simbolizar a potência, criar símbolos que ocupem o espaço daquilo que é, mas não existe, que é possível e poderá vir a existir. Cria, pois, linguagens simbólicas: a pintura, a música, a palavra...” BOAL (1996).
O teatro convencional, entendido como a definição de uma linguagem artística específica, também foi criado para suprir a distância entre o homem que é e o homem que pode ser, entre o homem em acto e a emergência da potência que transforma este homem em outro.
O essencial, no entanto, é a capacidade humanizadora do teatro. O teatro convencional tende a mascarar a interpenetração dialéctica entre teatralidade e humanidade, na medida em que reserva à arte teatral para determinados indivíduos, profissionais do teatro.
Nesse sentido, BOAL (1996) observa criticamente que “No início, Actor e Espectador coexistem na mesma pessoa; quando se separam, quando algumas pessoas se especializam em actores e outras em espectadores, aí nascem as formas teatrais como as conhecemos hoje. Nascem também os teatros, arquitecturas destinadas a sacralizar essa divisão, essa especialização. Nasce a profissão do actor.”
"Fábula de Xuá-Xuá"
Conta uma antiga fábula chinesa, anterior dez mil anos ao nascimento de Cristo, que foi uma mulher que descobriu a arte do teatro.
Há milhares de anos, quando homens e mulheres eram nómadas, viviam em hordas e vagavam pelos vales, montanhas e margens dos rios, caçando animais e colhendo frutos para se alimentar, morando em cavernas para se proteger, nasceu Xuá-Xuá, a mais bela fêmea de sua horda. Quando cresceu, o mais forte dos machos, Li-Peng, sentiu-se atraído por ela e foi correspondido. Gostavam de ficar juntos, de sentir os odores mútuos, de se lamber, se tocar. Era bom estar um com o outro e isso os deixava felizes.
Certa dia, Xuá-Xuá percebeu transformações em seu corpo: seu ventre crescia e seus seios se avolumavam. Envergonhada, começou a evitar Li-Peng, que não compreendia os motivos da fêmea. Com o passar do tempo, ele descobriu que Xuá-Xuá não era mais aquela que ele amava, nem no físico, tampouco no comportamento. Os dois se distanciaram e Xuá-Xuá preferiu ficar só, vendo seu ventre inchar, enquanto Li-Peng, abandonado, procurou outras fêmeas, sem, contudo, encontrar em nenhuma o amor de sua primeira fêmea.
Xuá-Xuá sentia seu ventre mexer, sem obedecer à sua vontade, involuntariamente. Li-Peng, de longe, assistia à agonia de sua amada com tristeza e curiosidade, imobilizado como um espectador daqueles acontecimentos incompreensíveis.
O menino Lig-Lig crescia e se desenvolvia no ventre da mãe, sem distinguir os limites de seu corpo. Ele e a mãe eram um só: não respirava senão através de seu corpo, era alimentado pelo cordão umbilical e não por sua própria boca... Suas primeiras sensações foram acústicas e ele era capaz de organizar os sons interiores e exteriores e orquestrá-los. Numa manhã de sol, deitada à margem de um rio, Lig-Lig veio à luz!
Era pura magia! Xuá-Xuá olhava o seu bebê, sem compreender como aquele pequeno ser tinha saído de dentro dela. Sabia apenas que aquele corpo minúsculo era sem dúvida uma parte sua, que antes estava dentro dela e agora estava fora. Eram um só: a prova disso é que incessantemente queria retornar a ela, juntar seu pequeno corpo ao grande corpo, sugar seu seio para recriar o cordão umbilical. Isso acalmava Xuá-Xuá. Os dois eram ela mesma e ela era os dois. De longe, Li-Peng, bom espectador, observava.
Rapidamente Lig-Lig tornou-se independente, aprendendo a comer outros alimentos inclusive. Algumas vezes o pequeno corpo não obedecia mais ao grande corpo, como se ordenasse às suas pernas que se cruzassem e elas, involuntariamente, se pusessem a andar. Xuá-Xuá ficou aterrorizada por não ter mais domínio sobre aquele pequeno corpo, tão querido e amado. Li-Peng, que até então era mero observador, resolveu criar uma relação com o menino. E, enquanto Xuá-Xuá dormia, Li-Peng se aproximou e os dois partiram, como seres individuais, duas pessoas diferentes. Li-Peng era Li-Peng e Lig-Lig era Lig-Lig.
O pai ensinou o menino a caçar e a pescar. Os dois estavam felizes. Xuá-Xuá, ao contrário, estava desesperada com o desaparecimento de seu pequeno corpo e chorou muito. Gritava em vão entre vales e montanhas. Alguns dias mais tarde, Xuá-Xuá os encontrou, já que pertenciam à mesma horda. Tentou recuperar seu filho, mas Lig-Lig disse não. Xuá-Xuá, diante da recusa do menino, foi obrigada a compreender que eles não eram um, mas seres distintos com vontades e desejos próprios, mesmo que Lig-Lig tivesse saído de seu ventre e fosse obra sua.
Esse reconhecimento obrigou Xuá-Xuá a olhar para si própria, identificando-se como uma mulher, uma mãe, uma dos dois. Quem era ela? Quem era o filho e quem era Li-Peng? Quais os seus desejos? Onde estavam e para onde iriam? E quando? Qual a sua história?
Ao separar-se do filho, Xuá-Xuá encontrou-se a si mesma e descobriu a essência da arte do teatro. Xuá-Xuá se viu separando-se de uma parte de si mesma: ela agia e observava. Era duas pessoas em uma só! Descobrindo o teatro, o ser se descobre humano. E, em síntese, o teatro é a arte de nos vermos a nós mesmos, a arte de nos vermos vendo, pois somos todos especta-actores.
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