Wednesday, March 26, 2008

A Sabedoria de Salomão

Então duas prostitutas apresen­taram-se dian­te do rei.

Uma delas disse-lhe: «Por favor, meu senhor, eu e esta mu­lher moramos na mes­ma casa, e eu dei à luz um filho, es­tando ela em casa.Três dias após o meu parto, ela também deu à luz. Vivía­mos jun­tas, sem que mais ninguém morasse ali; só lá estáva­mos nós as duas.Numa noite o filho desta mu­lher morreu, abafado por ela, que dor­mia sobre ele. Em plena noite ela le­van­tou-se, en­quanto a tua serva dor­mia, tomou de junto de mim o meu filho e deitou-o a seu lado; o seu fi­lho, o morto, passou-o para junto de mim. Ao levantar-me de manhã para dar de mamar ao meu filho dei com ele mor­to. Quando se fez dia, exami­nando bem, vi que aquele não era o meu fi­lho.»

A outra disse-lhe: «Não é assim; o meu filho é o que está vivo; o morto é que é o teu.» Aquela, por sua vez, dizia: «Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é meu.» As­sim falavam elas diante do rei. O rei disse então: «Esta diz: ‘O meu filho é o vivo; o morto é teu.’ Aquela, por sua vez, diz: ‘Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é o meu.’»

Sa­lo­mão ordenou: «Trazei-me uma es­pada.» E trouxeram uma es­pada ao rei.Dis­se: «Cortai o me­nino vivo em dois e dai a cada uma a sua me­tade.»

En­tão a mãe, a quem per­­tencia o filho vivo, e cujas entra­nhas, por causa do filho, esta­vam como­vi­das, disse ao rei: «Por favor, meu se­nhor, dai-lhe a ela o menino vivo! Não o ma­teis!» A outra, pelo contrário, di­­zia: «Cortai-o em dois! Assim, nem será para mim nem para ti!»

Foi então que o rei tomou a palavra e disse: «Dai o menino vivo à pri­meira; não o mateis; ela é que é a sua mãe.»

Tuesday, March 25, 2008

Não se luta por Amor

"O verdadeiro amor não precisa de lutas. Não se luta por amor: ou há amor, ou não há. Também não é preciso iniciar jogos, fazer-se interessante, entrar na coreografia infernal de medir forças e poderes do tipo «não me telefonaste durante três dias, agora também não me apanhas e nem te respondo aos emails», bem como outros disparates do género que só nos fazem perder tempo e energia. No verdadeiro amor não há lugar para esquemas, é preciso confiar, dar e acreditar sem reservas. É pegar ou largar, porque quando pega, é óptimo, e se não pega, não vale a pena correr atrás, nenhuma marca de cola nem truques de falinhas mansas resolvem o problema."

- Margarida Rebelo Pinto

No meio destas guerrinhas é que se perde o comboio da felicidade. Até neste campo, o importante parece ser "quem é que começou", "de quem é a culpa", "quem é que cede primeiro" e outras parvoíces afins!

O que "vale a pena"?

"O nosso tempo afinou a crença que só vale a pena o que for compensatório. O que nos der mais conforto, mais poder, mais dinheiro, mais prestígio, mais fama. O que acrescentar qualquer mais-valia ao nosso investimento. Fazer o que quer que seja só pelo gozo parece bizarro, um argumento de quem esconde alguma coisa ou não tem mais nada para invocar."

- Isabel Leal

Onde fica no meio de tudo isto a realização pessoal, o enriquecimento do EU? Há pouco tempo inscrevi-me num workshop de teatro e logo vieram as críticas: "pra que te serve isso?", "Queres ser actriz?", etc e tal... não quero pra nada, quero pra TUDO, pra MIM, porque gosto, porque me LIBERTA.

Tuesday, March 18, 2008

Xuá-Xuá, a fêmea pré-histórica que inventou o teatro...?

Augusto BOAL (1998) narra o nascimento do teatro através da fábula chinesa de Xuá-Xuá, fêmea pré-histórica que teria inventado o teatro.

Segundo a fábula, a fêmea primordial teria sido engravidada por um macho de sua horda, o predador Li-Peng. Dessa união nasceu Lig-Lig-Lé, mas Xuá-Xuá não conseguia perceber a diferença entre ela e o filho, pois considerava-o parte integrante dela.

Num determinado dia, Li-Peng apoderou-se da criança e ensinou-a a caçar e pescar. Li-Peng sabia que ele e Lig-Lig-Lé eram diferentes, que um não fazia parte do outro, pois não via correspondência nenhuma entre as brincadeiras do casal e o nascimento do bebé. Ao se reencontrarem com a mãe, o filhote não a quis, preferindo a companhia do pai.

Segundo BOAL, foi nesse momento que se deu a descoberta! Quando Xuá-Xuá renunciou a ter o seu filho totalmente para si. Quando aceitou que ele fosse um outro, outra pessoa. Ela viu-se separando-se de uma parte de si mesma. Então, ela foi ao mesmo tempo actriz e espectadora. Agia e observava-se: era duas pessoas numa só – ela mesma! Era especta-actriz. Como somos todos espectadores.

Descobrindo o teatro, o ser descobre-se humano.

Segundo BOAL (1996), na medida em que a teatralidade, ou tomada de consciência de si mesmo, se efectiva, ocorre uma dicotomização entre o que o homem é e o que o homem pode ser. Essa dicotomia cria uma distância, pois o homem passa a colocar-se dentro e fora da situação, simultaneamente, distância que separa o “ser” do “poder”, o presente do futuro, o acto da potência.
Devido a isso, o homem “necessita de simbolizar a potência, criar símbolos que ocupem o espaço daquilo que é, mas não existe, que é possível e poderá vir a existir. Cria, pois, linguagens simbólicas: a pintura, a música, a palavra...” BOAL (1996).

O teatro convencional, entendido como a definição de uma linguagem artística específica, também foi criado para suprir a distância entre o homem que é e o homem que pode ser, entre o homem em acto e a emergência da potência que transforma este homem em outro.

O essencial, no entanto, é a capacidade humanizadora do teatro. O teatro convencional tende a mascarar a interpenetração dialéctica entre teatralidade e humanidade, na medida em que reserva à arte teatral para determinados indivíduos, profissionais do teatro.

Nesse sentido, BOAL (1996) observa criticamente que “No início, Actor e Espectador coexistem na mesma pessoa; quando se separam, quando algumas pessoas se especializam em actores e outras em espectadores, aí nascem as formas teatrais como as conhecemos hoje. Nascem também os teatros, arquitecturas destinadas a sacralizar essa divisão, essa especialização. Nasce a profissão do actor.”


"Fábula de Xuá-Xuá"

Conta uma antiga fábula chinesa, anterior dez mil anos ao nascimento de Cristo, que foi uma mulher que descobriu a arte do teatro.

Há milhares de anos, quando homens e mulheres eram nómadas, viviam em hordas e vagavam pelos vales, montanhas e margens dos rios, caçando animais e colhendo frutos para se alimentar, morando em cavernas para se proteger, nasceu Xuá-Xuá, a mais bela fêmea de sua horda. Quando cresceu, o mais forte dos machos, Li-Peng, sentiu-se atraído por ela e foi correspondido. Gostavam de ficar juntos, de sentir os odores mútuos, de se lamber, se tocar. Era bom estar um com o outro e isso os deixava felizes.

Certa dia, Xuá-Xuá percebeu transformações em seu corpo: seu ventre crescia e seus seios se avolumavam. Envergonhada, começou a evitar Li-Peng, que não compreendia os motivos da fêmea. Com o passar do tempo, ele descobriu que Xuá-Xuá não era mais aquela que ele amava, nem no físico, tampouco no comportamento. Os dois se distanciaram e Xuá-Xuá preferiu ficar só, vendo seu ventre inchar, enquanto Li-Peng, abandonado, procurou outras fêmeas, sem, contudo, encontrar em nenhuma o amor de sua primeira fêmea.

Xuá-Xuá sentia seu ventre mexer, sem obedecer à sua vontade, involuntariamente. Li-Peng, de longe, assistia à agonia de sua amada com tristeza e curiosidade, imobilizado como um espectador daqueles acontecimentos incompreensíveis.

O menino Lig-Lig crescia e se desenvolvia no ventre da mãe, sem distinguir os limites de seu corpo. Ele e a mãe eram um só: não respirava senão através de seu corpo, era alimentado pelo cordão umbilical e não por sua própria boca... Suas primeiras sensações foram acústicas e ele era capaz de organizar os sons interiores e exteriores e orquestrá-los. Numa manhã de sol, deitada à margem de um rio, Lig-Lig veio à luz!

Era pura magia! Xuá-Xuá olhava o seu bebê, sem compreender como aquele pequeno ser tinha saído de dentro dela. Sabia apenas que aquele corpo minúsculo era sem dúvida uma parte sua, que antes estava dentro dela e agora estava fora. Eram um só: a prova disso é que incessantemente queria retornar a ela, juntar seu pequeno corpo ao grande corpo, sugar seu seio para recriar o cordão umbilical. Isso acalmava Xuá-Xuá. Os dois eram ela mesma e ela era os dois. De longe, Li-Peng, bom espectador, observava.

Rapidamente Lig-Lig tornou-se independente, aprendendo a comer outros alimentos inclusive. Algumas vezes o pequeno corpo não obedecia mais ao grande corpo, como se ordenasse às suas pernas que se cruzassem e elas, involuntariamente, se pusessem a andar. Xuá-Xuá ficou aterrorizada por não ter mais domínio sobre aquele pequeno corpo, tão querido e amado. Li-Peng, que até então era mero observador, resolveu criar uma relação com o menino. E, enquanto Xuá-Xuá dormia, Li-Peng se aproximou e os dois partiram, como seres individuais, duas pessoas diferentes. Li-Peng era Li-Peng e Lig-Lig era Lig-Lig.

O pai ensinou o menino a caçar e a pescar. Os dois estavam felizes. Xuá-Xuá, ao contrário, estava desesperada com o desaparecimento de seu pequeno corpo e chorou muito. Gritava em vão entre vales e montanhas. Alguns dias mais tarde, Xuá-Xuá os encontrou, já que pertenciam à mesma horda. Tentou recuperar seu filho, mas Lig-Lig disse não. Xuá-Xuá, diante da recusa do menino, foi obrigada a compreender que eles não eram um, mas seres distintos com vontades e desejos próprios, mesmo que Lig-Lig tivesse saído de seu ventre e fosse obra sua.

Esse reconhecimento obrigou Xuá-Xuá a olhar para si própria, identificando-se como uma mulher, uma mãe, uma dos dois. Quem era ela? Quem era o filho e quem era Li-Peng? Quais os seus desejos? Onde estavam e para onde iriam? E quando? Qual a sua história?

Ao separar-se do filho, Xuá-Xuá encontrou-se a si mesma e descobriu a essência da arte do teatro. Xuá-Xuá se viu separando-se de uma parte de si mesma: ela agia e observava. Era duas pessoas em uma só! Descobrindo o teatro, o ser se descobre humano. E, em síntese, o teatro é a arte de nos vermos a nós mesmos, a arte de nos vermos vendo, pois somos todos especta-actores.