Deve haver uma arte de amar. Provavelmente, até haverá várias, para justificar que ao longo dos tempos e de múltiplas formas de expressão o amor seja cantado, louvado, evocado como um sentido central da vida e da existência.Deve haver um jeito particular de alguns para ultrapassarem a emoção do que sentem quando se percebem vinculados a alguém e, a partir disso, construírem poéticas, estéticas e até éticas do estar e do ser.
O gostar de alguém é uma imensa, uma enorme banalidade que quase todos experimentamos. Mesmo que o entusiasmo da descoberta de sentimentos e sensações novas toque todos e acarrete nesse movimento períodos de euforia ou beatitude, a maioria dos mortais faz do amor um sentimento manso, um ponto de apoio para projectos de vida, um conforto implícito e até feliz. Alguns no entanto parecem destinados a acreditar que o amor tem de ser pungente e cheio. Que a intensidade é melhor, muito melhor, que a amenidade. Que o amor é mais profundo ou mais verdadeiro quanto mais exuberante e colorido for. Que o amor, erotizado, sacralizado, tingido de drama, é essencial à vida e cobre amantes de uma transcendência única.
A busca do amor, do grande amor desatinado e incontido, é, por isso, o caminho de alguns, que precisam do frenesim e do alvoroço para reconhecer que o que sentem é mesmo aquilo que querem, podem e devem sentir.
A arte de amar, as várias que se verifica existirem e, em alguns casos, fazerem escola, acaba, assim por ser os meandros complexos, as encenações cuidadas, os jogos de sedução, as meias palavras veladas ou enigmáticas, as carícias sub-reptícias, as lágrimas silenciosas, os gestos inacabados, os bilhetes de duplo sentido, os desencontros programados, as ameaças e chantagens afectivas meio proferidas, as declarações de amor por interpostas coisas os pessoas.
A arte de amar deve ser o tempo que se dedica à ideia de amor, o sofrimento experimentado em ciúmes e medos de perda, os pensamentos sobre o devir, sobre o que o outro disse, como disse ou querendo dizer o quê.
A arte de amar, acho que é o embrulho, às vezes opulento e requintado, em que se esconde, em que se tapa aquilo que nos liga a alguém e faz desse vínculo uma estória de pertença.
Pena, mesmo, que uns tantos tenham com essa arte uma relação tão exterior e frágil.
Pena, mesmo, que haja outros que se esmeram tanto no invólucro que acabem por desprezar o conteúdo. Mas é claro que já se sabe que o equilíbrio é, para todos nós, apenas uma tendência.
- Isabel Leal, Professora de Psicologia, Clínica no ISPA
Mas afinal o que é essa arte? Quantas vezes já parámos para pensar nisso... Quanto a conclusões, cada um faz as suas...
