Friday, May 30, 2008

A Arte de Amar

Deve haver uma arte de amar. Provavelmente, até haverá várias, para justificar que ao longo dos tempos e de múltiplas formas de expressão o amor seja cantado, louvado, evocado como um sentido central da vida e da existência.
Deve haver um jeito particular de alguns para ultrapassarem a emoção do que sentem quando se percebem vinculados a alguém e, a partir disso, construírem poéticas, estéticas e até éticas do estar e do ser.
O gostar de alguém é uma imensa, uma enorme banalidade que quase todos experimentamos. Mesmo que o entusiasmo da descoberta de sentimentos e sensações novas toque todos e acarrete nesse movimento períodos de euforia ou beatitude, a maioria dos mortais faz do amor um sentimento manso, um ponto de apoio para projectos de vida, um conforto implícito e até feliz. Alguns no entanto parecem destinados a acreditar que o amor tem de ser pungente e cheio. Que a intensidade é melhor, muito melhor, que a amenidade. Que o amor é mais profundo ou mais verdadeiro quanto mais exuberante e colorido for. Que o amor, erotizado, sacralizado, tingido de drama, é essencial à vida e cobre amantes de uma transcendência única.
A busca do amor, do grande amor desatinado e incontido, é, por isso, o caminho de alguns, que precisam do frenesim e do alvoroço para reconhecer que o que sentem é mesmo aquilo que querem, podem e devem sentir.
A arte de amar, as várias que se verifica existirem e, em alguns casos, fazerem escola, acaba, assim por ser os meandros complexos, as encenações cuidadas, os jogos de sedução, as meias palavras veladas ou enigmáticas, as carícias sub-reptícias, as lágrimas silenciosas, os gestos inacabados, os bilhetes de duplo sentido, os desencontros programados, as ameaças e chantagens afectivas meio proferidas, as declarações de amor por interpostas coisas os pessoas.
A arte de amar deve ser o tempo que se dedica à ideia de amor, o sofrimento experimentado em ciúmes e medos de perda, os pensamentos sobre o devir, sobre o que o outro disse, como disse ou querendo dizer o quê.
A arte de amar, acho que é o embrulho, às vezes opulento e requintado, em que se esconde, em que se tapa aquilo que nos liga a alguém e faz desse vínculo uma estória de pertença.
Pena, mesmo, que uns tantos tenham com essa arte uma relação tão exterior e frágil.
Pena, mesmo, que haja outros que se esmeram tanto no invólucro que acabem por desprezar o conteúdo. Mas é claro que já se sabe que o equilíbrio é, para todos nós, apenas uma tendência.


- Isabel Leal, Professora de Psicologia, Clínica no ISPA

Mas afinal o que é essa arte? Quantas vezes já parámos para pensar nisso... Quanto a conclusões, cada um faz as suas...

As Liberdades Essenciais


As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.

- Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

Monday, May 12, 2008

Sei que não vou por aí!

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


- José Régio, Cântico Negro

Friday, May 09, 2008

A Vida em Pleno

Diariamente criticamos o destino: "Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?" Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inacção? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! "Viveu oitenta anos!". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.

"Viveu oitenta anos". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.


- Séneca, in 'Cartas a Lucílio'