Tuesday, March 18, 2008

Xuá-Xuá, a fêmea pré-histórica que inventou o teatro...?

Augusto BOAL (1998) narra o nascimento do teatro através da fábula chinesa de Xuá-Xuá, fêmea pré-histórica que teria inventado o teatro.

Segundo a fábula, a fêmea primordial teria sido engravidada por um macho de sua horda, o predador Li-Peng. Dessa união nasceu Lig-Lig-Lé, mas Xuá-Xuá não conseguia perceber a diferença entre ela e o filho, pois considerava-o parte integrante dela.

Num determinado dia, Li-Peng apoderou-se da criança e ensinou-a a caçar e pescar. Li-Peng sabia que ele e Lig-Lig-Lé eram diferentes, que um não fazia parte do outro, pois não via correspondência nenhuma entre as brincadeiras do casal e o nascimento do bebé. Ao se reencontrarem com a mãe, o filhote não a quis, preferindo a companhia do pai.

Segundo BOAL, foi nesse momento que se deu a descoberta! Quando Xuá-Xuá renunciou a ter o seu filho totalmente para si. Quando aceitou que ele fosse um outro, outra pessoa. Ela viu-se separando-se de uma parte de si mesma. Então, ela foi ao mesmo tempo actriz e espectadora. Agia e observava-se: era duas pessoas numa só – ela mesma! Era especta-actriz. Como somos todos espectadores.

Descobrindo o teatro, o ser descobre-se humano.

Segundo BOAL (1996), na medida em que a teatralidade, ou tomada de consciência de si mesmo, se efectiva, ocorre uma dicotomização entre o que o homem é e o que o homem pode ser. Essa dicotomia cria uma distância, pois o homem passa a colocar-se dentro e fora da situação, simultaneamente, distância que separa o “ser” do “poder”, o presente do futuro, o acto da potência.
Devido a isso, o homem “necessita de simbolizar a potência, criar símbolos que ocupem o espaço daquilo que é, mas não existe, que é possível e poderá vir a existir. Cria, pois, linguagens simbólicas: a pintura, a música, a palavra...” BOAL (1996).

O teatro convencional, entendido como a definição de uma linguagem artística específica, também foi criado para suprir a distância entre o homem que é e o homem que pode ser, entre o homem em acto e a emergência da potência que transforma este homem em outro.

O essencial, no entanto, é a capacidade humanizadora do teatro. O teatro convencional tende a mascarar a interpenetração dialéctica entre teatralidade e humanidade, na medida em que reserva à arte teatral para determinados indivíduos, profissionais do teatro.

Nesse sentido, BOAL (1996) observa criticamente que “No início, Actor e Espectador coexistem na mesma pessoa; quando se separam, quando algumas pessoas se especializam em actores e outras em espectadores, aí nascem as formas teatrais como as conhecemos hoje. Nascem também os teatros, arquitecturas destinadas a sacralizar essa divisão, essa especialização. Nasce a profissão do actor.”


"Fábula de Xuá-Xuá"

Conta uma antiga fábula chinesa, anterior dez mil anos ao nascimento de Cristo, que foi uma mulher que descobriu a arte do teatro.

Há milhares de anos, quando homens e mulheres eram nómadas, viviam em hordas e vagavam pelos vales, montanhas e margens dos rios, caçando animais e colhendo frutos para se alimentar, morando em cavernas para se proteger, nasceu Xuá-Xuá, a mais bela fêmea de sua horda. Quando cresceu, o mais forte dos machos, Li-Peng, sentiu-se atraído por ela e foi correspondido. Gostavam de ficar juntos, de sentir os odores mútuos, de se lamber, se tocar. Era bom estar um com o outro e isso os deixava felizes.

Certa dia, Xuá-Xuá percebeu transformações em seu corpo: seu ventre crescia e seus seios se avolumavam. Envergonhada, começou a evitar Li-Peng, que não compreendia os motivos da fêmea. Com o passar do tempo, ele descobriu que Xuá-Xuá não era mais aquela que ele amava, nem no físico, tampouco no comportamento. Os dois se distanciaram e Xuá-Xuá preferiu ficar só, vendo seu ventre inchar, enquanto Li-Peng, abandonado, procurou outras fêmeas, sem, contudo, encontrar em nenhuma o amor de sua primeira fêmea.

Xuá-Xuá sentia seu ventre mexer, sem obedecer à sua vontade, involuntariamente. Li-Peng, de longe, assistia à agonia de sua amada com tristeza e curiosidade, imobilizado como um espectador daqueles acontecimentos incompreensíveis.

O menino Lig-Lig crescia e se desenvolvia no ventre da mãe, sem distinguir os limites de seu corpo. Ele e a mãe eram um só: não respirava senão através de seu corpo, era alimentado pelo cordão umbilical e não por sua própria boca... Suas primeiras sensações foram acústicas e ele era capaz de organizar os sons interiores e exteriores e orquestrá-los. Numa manhã de sol, deitada à margem de um rio, Lig-Lig veio à luz!

Era pura magia! Xuá-Xuá olhava o seu bebê, sem compreender como aquele pequeno ser tinha saído de dentro dela. Sabia apenas que aquele corpo minúsculo era sem dúvida uma parte sua, que antes estava dentro dela e agora estava fora. Eram um só: a prova disso é que incessantemente queria retornar a ela, juntar seu pequeno corpo ao grande corpo, sugar seu seio para recriar o cordão umbilical. Isso acalmava Xuá-Xuá. Os dois eram ela mesma e ela era os dois. De longe, Li-Peng, bom espectador, observava.

Rapidamente Lig-Lig tornou-se independente, aprendendo a comer outros alimentos inclusive. Algumas vezes o pequeno corpo não obedecia mais ao grande corpo, como se ordenasse às suas pernas que se cruzassem e elas, involuntariamente, se pusessem a andar. Xuá-Xuá ficou aterrorizada por não ter mais domínio sobre aquele pequeno corpo, tão querido e amado. Li-Peng, que até então era mero observador, resolveu criar uma relação com o menino. E, enquanto Xuá-Xuá dormia, Li-Peng se aproximou e os dois partiram, como seres individuais, duas pessoas diferentes. Li-Peng era Li-Peng e Lig-Lig era Lig-Lig.

O pai ensinou o menino a caçar e a pescar. Os dois estavam felizes. Xuá-Xuá, ao contrário, estava desesperada com o desaparecimento de seu pequeno corpo e chorou muito. Gritava em vão entre vales e montanhas. Alguns dias mais tarde, Xuá-Xuá os encontrou, já que pertenciam à mesma horda. Tentou recuperar seu filho, mas Lig-Lig disse não. Xuá-Xuá, diante da recusa do menino, foi obrigada a compreender que eles não eram um, mas seres distintos com vontades e desejos próprios, mesmo que Lig-Lig tivesse saído de seu ventre e fosse obra sua.

Esse reconhecimento obrigou Xuá-Xuá a olhar para si própria, identificando-se como uma mulher, uma mãe, uma dos dois. Quem era ela? Quem era o filho e quem era Li-Peng? Quais os seus desejos? Onde estavam e para onde iriam? E quando? Qual a sua história?

Ao separar-se do filho, Xuá-Xuá encontrou-se a si mesma e descobriu a essência da arte do teatro. Xuá-Xuá se viu separando-se de uma parte de si mesma: ela agia e observava. Era duas pessoas em uma só! Descobrindo o teatro, o ser se descobre humano. E, em síntese, o teatro é a arte de nos vermos a nós mesmos, a arte de nos vermos vendo, pois somos todos especta-actores.

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