Ferraz fazia filhos todas as terças às onze, e aos sábados à tarde, se lhe pedissem com modos.
- Gostava de os fazer e fazia-os bem feitos – elogia uma vizinha que chegou a vendê-los na quermesse da paróquia nas festas de Verão.
- Tinham muita saída, sabe? E não eram caros – contam-nos na aldeia que terá mesmo ganho um concurso.
- Uma taça. Merecida! Não duvide que fazia os melhores filhos das redondezas! – diz um carteiro que chegou a fazê-los também, embora admita que não tão bem quanto Ferraz.
- Ele tinha uma técnica, não sei! Olhe, às tantas pedi para ele nos fazer um! Não foi, Amélia? – pergunta à sua jovem esposa, que confirma.
Ferraz, homem rude mas delicado na sua arte, segundo uma prima.
- Uma vez esteve sete horas a fazer um! A noite toda! Aquilo não estava lá como ele queria. Eu não lhe disse nada, quando estava naquilo ninguém o podia incomodar. Tenho três. Olhe que lindos! – exclama a prima enquanto mostra as fotos dos petizes.
Vizinhas, amigas, até forasteiras que passavam, ouvindo rumores sobre as técnicas de Ferraz.
- Chegou mesmo a fazer filhos para fora – diz-nos a mãe orgulhosa.
- Certa vez, uma senhora pediu-lhe um para levar para o estrangeiro! – acrescenta a progenitora em surdina. Embora não tenhamos conseguido confirmar a veracidade do feito. Nas palavras da avó, já o pai dele «gostava muito de os fazer.
- Adorava! – diz a septuagenária, recordando com um brilho nos olhos o dia em que ele lhe fez um como prenda de Natal.
- Foi a uma terça-feira. Estávamos ali na sala e eu disse-lhe: «Ó filho, sabes o que é que podias fazer à avó? Ias ali buscar um copo de água e já agora fazias-me um filho, que é Natal e assim nem tinhas de me comprar uma prenda!»
O avô confirma porque esteve presente, e enumera os conselhos vários que deu ao jovem Ferraz.
- Teria muito futuro se tem saído daqui. Eu bem lhe disse «Vai, filho! Vai! Se gostas tanto porque é que não vais fazer filhos daqui p´ra fora! Lá na cidade há cursos para isso e tu tens jeito!»
Ferraz nunca foi. Continuou a fazê-los. Bem feitos como sempre, até ao dia em que parou.
Uns dizem que se fartou. Outros dizem que terá perdido o jeito.
Ferraz nunca falou disso. Diz-se que as suas últimas palavras sobre o assunto terão sido:
- Vai chamar pai a outro!
- Nilton, O Pai Natal não existe
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